Esta coleção foi selecionada e preparada para a impressão em outubro de 1949 pelo próprio Gustav Radbruch que, um mês depois, ao completar 71 anos de idade, viria a falecer.Apesar de sua modéstia, ele sabia da importância desta seleção, ainda que fossem eliminados alguns artigos que, durante dois tormentosos decênios, tinham elevado seu nome no âmbito nacional e internacional, não apenas pela quantidade, pela reconhecida profundidade de pensamento, pela cultura e beleza estilística, mas também pelo importante acréscimo de alguma coisa profundamente nova: a possibilidade de neles encontrar-se uma autobiografia relativa a suas lições e sua atuação pública, a suas confissões e advertências, a sua persistência, seus esclarecimentos e reiterações. Trata-se de um complemento e de um contraste em relação ao “caminho interior”, o destino de uma vida profissional dedicada ao Direito, que foi o esboço de autobiografia ditada por ele em 1951. Um texto que representa uma evolução em grande estilo humanístico-jurídico. Embora preparado por ele mesmo para a impressão, o trabalho só foi publicado dois anos depois de sua morte, por iniciativa de sua viúva Lydia Radbruch. Nele está descrito, sob a forma de depoimento pessoal de um jurista e humanista alemão, o cenário de sua atividade pública e de seu amadurecimento em três campos de batalha: a República de Weimar, o Terceiro Reich e o caos da destruição do pós-guerra.            As lutas aqui relatadas de forma muito particular pertencem a um período ultrapassado da História, mas os fatos que o sucederam obrigam a retornar a elas porque as profundas discordâncias que conduziram aos problemas e posições que lhes deram causa tinham, em última instância, natureza supra-pessoal, supra-temporal, e são para nós, ainda hoje, determinantes de nosso destino. Por isso resta-nos, depois destes longos e obscuros anos, despertar o verdadeiro “homem no Direito”, sempre disposto ao sacrifício e profundamente humano, que continua merecedor de gratidão e é sempre obrigatório.           

Freiburg, setembro de 1957

Fritz von Hippel